6 de setembro de 2011

Manhã

A voz, que vem de bem longe embora pareça vir mesmo de dentro de mim, ecoa imperativa.
Levanto, passo meu café - hoje - bem forte e amargo, que é para combinar com meu dia e com minha aparência.
Sento em meio a sujeira da varanda e penso se acendo um cigarro. Acendo.
Meu corpo recusa o gosto da nicotina, embora minha mente relaxe no emaranhado de fumaça e poluição. Cinzas.
Acendo mais um.
Tento não pensar em nada. De repente, percebo que estou esvaindo pelo ralo e saio com pressa.
Caminho cambaleante e, na cozinha, equilibro a xícara na pilha de quinquilharias por lavar. Preciso me lavar.
Resisto à cama que me intima sedutora. Me arrasto até o chuveiro. Uma enorme dúvida inunda minha vida: quente ou frio?
Opto pelo primeiro com esperança de que aqueça também minha'alma.

21 de março de 2011

A quem interessar possa

Não admito julgamentos inconsequentes,
nem opiniões infundadas advindas dos ciúmes.
Não admito que me tomem o leme do barco,
do meu barco!

Não gosto da fraqueza da insegurança,
do apego sufocante.
Tenho asco da posse arrebatada,
da exigência absoluta.

Tenho meu eu guardado só para mim.
Não divido com os outros.
NÃO D-I-V-I-D-O!

O eu é meu, logo, mando, desmando e desvio, quando julgo ser assim ou assado.

Amo os meus,
amo mesmo!
Mas do meu jeito,
com meu modo torto de amar.

Amo por vezes, com ímpetos de idolatria
ou com a alegria de um sabiá ou ainda,
com a obscuridade de um vilão ressentido.

Mudo!

Sou essa que observas e depois, outra.
E ainda outra e mais outra.
Dou-me o direito!
De mudar, de mudar, de mudar, de mudar...

A essência, essa sim permanece.
O amor verdadeiro, de cá não sai.
Confia!
Do contrário, não me conheces de fato.

Nem quando sou essa uma
ou a outra
ou a outra
ou a outra...

3 de setembro de 2010

ATO 1 - MÚSICA

Ela tem seus cd's,
que não ouve mais.
As músicas ficam guardadas num pen-drive,
junto com o que resta dela.

As músicas são sempre as mesmas.
Ela tem preguiça do novo.
Mas tédio do dia-a-dia!

ATO 2 - LIVROS

Ela tem seus livros velhos e mofados,
que não lê mais.
Os textos ficam no nootebook,
junto com a sua alma.

Os textos não são mais os mesmos.
Ela tem medo do passado.
Lê livros de auto-ajuda!

ATO 3 - OS BATONS

Ela tem suas bebidas, seus batons,
que já não usa mais.
A vida fica guardada na prateleira do freezer,
junto com seu corpo.

A carne ainda é a mesma.
Ela tem medo do futuro!
Não sabe mais chorar...

FECHAM-SE AS CORTINAS!

Enigma do dia

Tenho pressa de chegar do lado de lá do texto.
Sei que, minhas pernas - curtas e pesadas -
Percorrem a página devagar, devagarinho...

Escreve torto, meu pé pequeno,
na linha frágil da página
que ainda não foi virada.

Com o pé, pois não há mãos suficientemente fortes
Para cravar em letras "xilografadas"
o que ainda não foi dito
Por mim...

Quanto mais confuso, o negro da página,
Mais perto me sinto da claridade dos pensamentos.

Os meus sim.
Os seus não!

Porque escrever com o pé,
Nas páginas de um texto inventado,
Não faz sentido!

As palavras simplesmente saem.
Vomito-as com ânsia e pressa!

Não falo pra ti,
Não falo pra ninguém,
o que tudo isso quer dizer...
Somente crio enigmas!

1 de junho de 2010

Achando culpados

Estive pensando, relembrando e passeando (como quem caminha pra lugar algum) pelos labirintos do meu passado.
E nessas divagações complexas e um tanto desconexas, cheguei desconfiada (nunca chego a lugar algum), nessa inconclusa teoria de que “estudar as palavras” me afasta delas...
E sim, sim... É uma teoria (apesar, de inconclusa), de bastante relevo e causa, até de discussões mais aprofundadas, mas... Como explicar?...
É que...
Lembro-me bem (como andar de bicicleta), que anteriormente ao curso de Letras, gostava mais das palavras (como ainda gosto), mas para ainda além dessas daí...
Gostava das minhas palavras, dos meus dizeres, dos meus manuscritos, dos meus rabiscos, dos meus emaranhados de textos digitados e publicados (ou não).
E lembro-me que não era tão raro (como agora), ter vontade de escrever sobre nada (e tudo), sobre o ser (e o não ser) de estar aqui (ou acolá).
Lembro-me bem...
Hoje tenho preguiça dos meus textos, vergonha do que são, pena dessa auto-piedade piegas e “chula” de escritor decadente...

Irrito-me facilmente com esse marcador do Word, que pisca sem parar... Por que cobra-me tanto palavras imediatas?... “Até tu, Brutus?”.

Tenho vontade de protestar, ser ridícula: terminar o texto por aqui, pronto, sem ponto, sem final...mas meu orgulho de criança mimada, de “pseudo-tudo-clichê”, não me deixa.
Afinal, preciso publicá-lo, acariciar meu ego literário!!!
E se agora, você, leitor desalmado (sim, cruel), chegou à conclusão que nada tem a ver minha falta de inspiração e talento com o “estudo das palavras”.
Por favor, cale-se! Não atreva-se!
Não sabe?...
Há sempre de haver um culpado...

3 de abril de 2010

Nada

Fique bem e quieto
Ande certo e sempre
No compasso do abraço
(do traço e do pulso).

Corte e coma
Colha e solte
(o fundo do rosto,
o raso do riso).

Pense e sinta
Despeje e acenda
(o fogo,
fúria,
desconexo,
descontextualizado).

De dentro.

6 de março de 2010

Essa tal de essência que às vezes não presta pra nada...
E não temo dizer que raramente me orgulho dessa percepção idiota para coisas que no final, me farão mal.
Você, alma masculina, talvez não entenda do que falo. Não entenda esse talento nato, barato, para me sensibilizar com coisas banais. Banais, sim! Mas que só se mostram assim no final do gole, amargo e ferino.
E eu que “me penso” tão sábia... Tão conhecedora dos "sim’s" e "não’s", dos amores e desamores da vida. Porque, como mulher, me vem sempre essa essência chata, incômoda, de me fazer crer que tudo (gestos, trejeitos e controvérsias) é dotado de poesia e delicadeza.
Que nada!
Um olhar pode ser simplesmente um olhar! E nada mais!
Pra que poetizar? Colocar reticências?...Encher de glamour inventado um ato comum?
E não me venham românticos de plantão, com seus caderninhos cor de rosa, com seus “ais” e ressalvas.
Hoje, quero a realidade mais que qualquer coisa.
Quero o gosto masculino de enxergar as coisas pelos olhos e só.
O coração que se apague e deixe de enxergar por umas horas, que seja.
Porque, às vezes, sentir demais cansa...

16 de novembro de 2009

E inicia-se uma nova etapa em minha vida.
Sinto na ponta dos pés, ou melhor, na ponta dos dedos gelados dos meus pés, que reclamam o frio do ar condicionado, que parece que ventila pro chão, mas não, sempre sinto frio nos pés, os pés são os verdadeiros catalisadores de minha temperatura corporal, sempre.
Mas não é isso! Sinto o frio, claro, mas sinto além, na ponta dos dedos dos pés, a ansiedade de tudo isso, de todo esse Novo, tão Novo, que atiça mais que curiosidade de frase de biscoitinho da sorte. Não tem graça, mas a gente come pra ler a frase. Sabe?...
É essa vontade de ler a frase, que tem me deixado ansiosa enquanto como o biscoito e, acho que é por isso, que fica sem graça...
Não é sempre que percebemos as mudanças em nossa vida, de repente você está deitada no sofá e (...), ta mudada! Pronto, você percebeu ali e agora, mas quando foi, quando começou ou terminou?...Enfim, não interessa, mudou e ponto.
Mas têm as mudanças planejadas, que causam um misto de “nada” e “sei lá o quê”, como: um curso novo, emprego novo, namoro, noivado, viagens, casamento, ca-sa-men-to...
Hoje quero o novo velho pedaço daquilo que teria jogado fora.
O novo, que pra mim, era velho antes.
Antes, antes, antes de vê-lo com outros olhos.
Com meus olhos velhos e cansados... De seis anos atrás!
Talvez mais...
Teria jogado fora, teria jogado.
Mas não joguei.
Mas não joguei tudo isso, tudo isso: porque sou libriana!
Libriana! Libriana! Libriana!
Que nada joga fora, que não joga fora nada,
Que nada, nada, nada...